The Art of Building: R-Typography
Rui Abreu e Catarina Vaz formam a dupla por detrás da R-Typography, estúdio fundado em 2008 que se dedica à criação de tipos de letra e que desenhou a Sul Sans, utilizada no rebranding da Vector Mais.
Rui Abreu e Catarina Vaz, a dupla por detrás da R-Typography
Apaixonados por tipografia e por tudo o que com ela está relacionado, sempre estiveram atentos a tudo o que os rodeia. Aliás, a dupla defende que “para observarmos, é preciso aprendermos a ver. E para aprendermos a ver é preciso ler e estudar sobre o tema”.
Quando se mudou para Lisboa, uma cidade com uma componente histórica de type design muito forte, Rui Abreu ficou fascinado com a cultura gráfica e visual que a cidade tinha para oferecer, nomeadamente letreiros antigos e neons. Fotografou inúmeros registos da época e rapidamente percebeu que no design gráfico, a tipografia era o que mais o fascinava. Daí a criar a R-Typography, estúdio ao qual a sua mulher Catarina Vaz se juntou, foi um passo.
Mas afinal, o que conta mais quando se desenha um tipo de letra: as regras que é suposto cumprir ou o fator originalidade? “Na verdade é um jogo entre as convenções históricas e a introdução de elementos originais” afirma Rui Abreu para quem a introdução de uma camada subtil de originalidade é essencial no processo criativo. A Sul Sans, o tipo de letra que foi utilizado no rebranding da Vector Mais segue exatamente essa liberdade em termos criativos, baseia-se em elementos vernaculares como letreiros de garagens e edifícios públicos, que não seguem as regras clássicas de design. Ao incorporar essas proporções “dissonantes” e não eruditas, ou seja que não seguem as proporções clássicas, o estúdio R-Typography criou um estilo único, mantendo o rigor técnico profissional para garantir a qualidade do resultado.
E é exatamente esse quebrar com as regras que lhe deu personalidade: “na Sul Sans o E é super largo, tem umas horizontais muito fortes e isso é que tem piada. O M é mais estreito do que o costume e para ser estreito fica com um bico no meio, o que também tem graça. No A, é preciso uma certa largura porque há uma barra horizontal, como no Sul Sans o A é um pouco estreito a barra é baixa”, afirma Rui Abreu que levou seis meses a desenvolver este tipo de letra. Apesar de não haver uma ordem fixa para desenhar letras, o estúdio começa com frequência pelas formas redondas (como o O) e verticais (como H e I) para estabelecer o ritmo. O desenvolvimento de um alfabeto pode começar a partir de ideias específicas para uma letra, que depois são expandidas para o restante do sistema, dependendo da inspiração.
O Sul Sans foi a base tipográfica do rebranding da Vector Mais e inspiração na estação de Belém.
Rede Bakaert com o rebranding da Vector Mais
“O design de tipos é uma forma de canalizar tudo aquilo que amo e a que aspiro através da aparência das palavras, vestindo-as ou reformulando-as de maneiras subtilmente diferentes, e, espero, criando algo que seja simplesmente bom por si só.” — Rui Abreu
Princípio, meio e fim
O processo de “fechar” uma fonte envolve uma etapa inicial criativa, quando as ideias fazem todas sentido, seguida de meses de produção, focada no espaçamento, testes de legibilidade e ajustes para que a fonte seja funcional e natural ao ser lida. Nestes testes a R-Typography utiliza textos variados, frequentemente pequenos excertos de livros que estão a ler, em vez de pangramas(*) fixos, para evitar o vício de leitura.
Além disso, o estúdio testa as fontes em diversos idiomas: português, espanhol e italiano que são parecidos. Depois inglês, francês, alemão e checo, para verificar a frequência de letras e os acentos em diferentes sistemas linguísticos. Obviamente que cada projeto é um projeto, logo cada um tem os seus desafios específicos. Quando surgem momentos difíceis, consideram que o melhor é deixar o projeto durante algum tempo, para voltar a ele mais tarde e repensar o desafio. Aliás, estes obstáculos são comuns e fazem parte do processo.
Cada tipo de letra é desenhado com um propósito, se pensarmos por exemplo num livro, por norma utiliza-se um tipo de letra serifado “tem a ver com aquilo que são os nossos hábitos de leitura, tem que ser algo ergonómico” explica Rui Abreu que considera a Futura, um tipo de letra histórico desenhado pelo americano Paul Renner, como um dos mais importantes. O designer destaca ainda a importância do conhecimento das proporções clássicas daletra romana, caso se pretenda seguir essa linha criativa.
(*) PANGRAMAS
Um pangrama é uma frase que utiliza todas as letras de um determinado alfabeto, idealmente pelo menos uma vez. São muito usados em tipografia e design gráfico para testar tipos de letra, porque permitem ver como diferentes letras, combinações e formas se comportam. O exemplo mais conhecido em inglês é: “The quick brown fox jumps over the lazy dog.” Contém todas as 26 letras do alfabeto inglês. Em português, um exemplo bastante conhecido é: “Luís, põe no xadrez cinco gansos felizes.”
Capa da revista Esquire com o tipo de letra Flecha
Rui Abreu a trabalhar no estúdio da R-Typography
Desenhar letras na era digital
Apesar de haver muita gente a continuar ler em papel, a verdade é que cada vez mais se lê em formatos digitais: smartphone, ipad, website, computadores, entre outros. Para Rui Abreu e Catarina Vaz essa digitalização não altera o processo criativo de um tipo de letra porque “os écrans têm cada vez mais definição, ou seja, um tipo de letra que funciona para ser lido num livro, também funciona para ser lido num ecrã” explica esta dupla que adianta que neste momento há muito designers a utilizarem letras serifadas, o que dantes não acontecia.
Outra tendência que a R-Typography tem notado são as re-interpretações, por parte de alguns estúdios, de letras como a Times New Roman, um tipo de letra muito usada em jornais. A base é semelhante, mas surge com um twist.
O portfólio da R-typography conta com quase três dezenas de tipos de letra. De entre os vários exemplos, destaque para alguns como o Chassi, um tipo de letra desenhado ao estilo de Claude Garamond (apesar da dupla não ter especial interesse em criar revivals); para Pathos onde as serifas foram levadas ao extremo em termos de tamanho; ou no Flecha que surgiu depois da observação de um tipo de letra de Fleischman, apresentado no espécime tipográfico de 1768 da fundição Enschedé.
Entrar no website da R-Typography é perceber que o desenho de tipos de letra é muito mais complexo e interessante do que aquilo que possamos imaginar. A R-typography dispõe de um serviço tipografia e lettering à medida, onde o tipo de letra é criado de raiz para um determinado cliente. Um luxo, diríamos.
Rui Abreu e Catarina Vaz em processo criativo