The Art of Building: Oficina Marques
Há uma ideia que atravessa o trabalho da Oficina Marques: a vontade de explorar os limites entre arte, craft, design e arquitetura. Fundada por Gezo Marques e José Aparício Gonçalves, a oficina desenvolve um universo visual marcado pelo relevo, pela matéria e por uma forte ligação ao mundo natural. Com a coleção Arcádia, criada em colaboração com a Viúva Lamego, esse universo ganha uma nova escala e encontra lugar em diferentes espaços, dos ambientes residenciais e comerciais aos locais de trabalho.
Gezo Marques e José Aparício Gonçalves no processo criativo da criação da coleção Arcádia com a Viúva Lamego
Este é um projeto nasce também de uma colaboração com a Viúva Lamego onde a dupla criou dois painéis para a exposição que assinalou os 175 anos da histórica marca portuguesa, no Museu Nacional do Azulejo. A residência artística realizada na fábrica da Viúva Lamego permitiu a Gezo Marques e José Aparício Gonçalves conhecer de perto o legado da marca e a experiência dos seus artesãos, estabelecendo as bases para uma colaboração que viria a materializar-se na Arcádia. Os azulejos-matriz foram desenvolvidos manualmente pela Oficina Marques e deram posteriormente origem aos moldes utilizados na produção desta coleção. Este processo traduz uma das ambições da dupla: levar a sua linguagem artística e a dimensão manual do seu trabalho mais além: “o objetivo foi levar a arte e a manualidade da Oficina Marques para uma escala arquitetónica, imbuindo o nosso universo noutros projetos de maior volume espacial e para outras dimensões da experiência humana”, refere Gezo Marques.
Pormenor de um azulejo desta coleção
Instalação da Arcádia na galeria da Oficina Marques, no decorrer da Lisbon Design Week 2025, criada em conjunto com o estúdio Spacegram.
Quando a arte entra no espaço de trabalho
A presença da Arcádia no novo escritório da AstraZeneca demonstra precisamente essa capacidade de adaptação a novas dimensões. Construído pela Vector Mais, o projeto ocupa seis pisos do Edifício Báltico, no Parque das Nações, e foi criado para reunir cerca de 750 colaboradores num novo hub de referência da empresa em Lisboa.
Com conceito da Gensler e desenvolvido num processo de design & build da CBRE | Turner & Townsend, o espaço procura estabelecer uma relação direta com a cidade e com a cultura portuguesa. Materiais, cores, texturas, elementos naturais e obras de arte foram integrados numa arquitetura pensada para criar diferentes experiências ao longo dos pisos.
Gezo Marques e José Aparício Gonçalves, a dupla por detrás da Oficina Marques
Neste contexto, a Arcádia introduz uma dimensão particularmente ligada à matéria e ao trabalho artesanal. Os relevos dos azulejos acrescentam profundidade às superfícies e transportam para o ambiente corporativo uma linguagem inspirada na natureza, contribuindo para quebrar a ideia convencional de um escritório exclusivamente funcional.
Esta escolha ganha ainda maior significado quando consideramos o tempo que as pessoas passam atualmente no local de trabalho. Para a Oficina Marques, a integração da coleção nestes ambientes representa precisamente a possibilidade de tornar mais próximos e mais fáceis de habitar espaços que fazem parte do quotidiano de tantas pessoas. “Hoje a vida de grande parte das pessoas vida está muito ligada a estes locais, é neles que passam grande parte do seu tempo. Por isso, deixa-nos muito felizes pensar que contribuimos para que eles sejam mais fáceis de habitar através do nosso trabalho”, acrescenta José Aparício Gonçalves.
Azulejos Arcádia no projeto da AstraZeneca
“Desde o início que imaginámos a Arcádia em qualquer lugar, e um escritório como o da AstraZeneca foi sem dúvida um excelente cenário para esta nossa coleção.” — José Aparício Gonçalves
Entre tradição e contemporaneidade
A Arcádia representa também uma forma de reinterpretar o azulejo português. Ao unir a linguagem contemporânea da Oficina Marques à experiência e tradição da Viúva Lamego, a coleção demonstra como este material profundamente associado à cultura portuguesa continua a encontrar novas possibilidades na arquitetura contemporânea. Não se trata apenas de recuperar uma técnica que faz parte do nosso património, mas também de colocá-lo em diálogo com novas formas de criação e utilização. O azulejo deixa de ser apenas revestimento para assumir uma dimensão escultórica, tátil e expressiva.
Esta é aliás uma abordagem que está no centro do trabalho da Oficina Marques “estamos sempre a explorar os limites das disciplinas e apreciamos o diálogo interdisciplinar”.
Essa vontade de cruzar universos está presente desde a conceção da Arcádia até à sua aplicação em projetos reais. A coleção nasceu de uma prática artística, foi desenvolvida em colaboração com uma das mais importantes referências da cerâmica portuguesa e chega agora a espaços onde a arquitetura e a vida quotidiana se encontram.
No escritório da AstraZeneca, esse percurso torna-se particularmente evidente. Uma linguagem criada na oficina passa a integrar um projeto de grande escala e participa na criação de um ambiente de trabalho contemporâneo, mas profundamente ligado ao lugar.
Da pequena matriz trabalhada à mão à superfície arquitetónica, a Arcádia mostra como a arte pode ganhar novas dimensões sem perder a sua essência. E como o trabalho da Oficina Marques encontra, na arquitetura, uma nova forma de chegar às pessoas e de fazer parte dos seus momentos quotidianos.
Arcádia